Projetar-se

Gritar ao mundo no mundo. Era o que ele queria, na beira de seus trinta anos e nenhuma árvore plantada, nenhum livro escrito e nada dos todos os outros desejos e frases feitas para todos. Queria mais, existir, exercer sua liberdade, escolher. Sair do cubículo e dos afazeres que o prendia todos os dias - de segunda a sábado presencialmente, e no domingo em mente. Projetar! Projetar sua vontade no mundo, sua sombra, suas escolhas. Virar algoz do mundo e o fazer sofrer as consequências de suas escolhas, de sua existência. O ser aí. Queria tanto e não faria nada. O que não percebia, era que, veladamente, projetava sua vontade no mundo, escolhia não escolher, não mudar. Exercia a liberdade ignorando-a, definindo sua amarga existência na mediocridade do comodismo.

AVALIADOR AVALIADO


Entrou, sentou, arrumou o retrovisor, o cinto, deixou tudo em ordem. Engatou a primeira, ligou, saiu e pum! - Pum? Como Pum? - Indagou-se.
Pode descer- Disse o fiscal do Detran
- Como descer? Nem comecei, descer já? Fiz tudo certinho, até o cinto.
- Sinto muito, mas o senhor não ouviu o barulho?
- Claro, o pum! Ouvi, e daí?
- Você bateu.
- Bati. Bati? Bati em quê?
- Num cone, oras.
- E vou ter que sair porque bati num cone? Mas que despautério.
- Que nada, imagine só, poderia ser uma pessoa, uma criança, seu filho.
- Filho? Não tenho filho.
- E daí? Seu pai, um velhinho qualquer, imagine, poderia ser você, eu.
- Você eu imagino.
- Como?
- Disse que não imagino. É um cone. Somente um cone. Um maldito cone, por sinal. Vai me reprovar por causa de um cone. São quinhentos reais e quatro meses jogados fora por causa de um mísero cone. Não acredito.
- Mas acredite. Não estaria falando assim se fosse uma pessoa. Ta vendo ali, o cone caído, entre a primeira listra e a segunda, dois olhinhos, uma boquinha entreaberta e um narizinho jorrando sangue.
- Credo! Como você tem uma imaginação fértil. Daria até pra plantar um pé de mandioca na sua cabeça.
- Ta dizendo que eu tenho excrementos na cabeça?
- Não! Nunca. Tô imaginando uma criancinha ali. Caída, gélida e tísica. Coitadinha, como pude, cruel dessa maneira. Sou um crápula, devo ser condenado à prisão perpétua, morte. Um pobre infanto-cone, um conezinho. E eu, o provedor da morte e da dor da família Cone. Todos chorando, remoendo-se de dor pela perda de um familiar. Um ente mais que querido. Minha morte não trará a vida daquela criaturinha de Deus. Deus! Deve estar triste por minha ação impensada. Não sou digno de sua morada. DEUS! Como sofro. Sabe de uma coisa, vou sair, beber, empanturrar-me de álcool, ébrio da razão. Não! Não beberei, não sou digno de mais nada desse mundo, matei um pobre cone.
- Calma! Calma, escuta. Era só um cone, somente um cone, um conezinho, como você mesmo tinha falado. Não vamos dramatizar.
- Então posso fazer meu exame?
- Não.
- Eu sei que não. Sei, matei o cone. E e se ele fosse filho único. Único! Sou um assassino.
- Péraí! Tudo bem, você pode fazer novamente. Desde que pague um módico preço pela reavaliação.
- Como assim?
- Bem, teno família, sabe, boquinhas para alimentar lá em casa. Manja “uma mão lava a outra”? Ué, você não quer fazer o teste novamente? Estou te dando a chance.
- Sabe de uma coisa? Obrigado, mas, acho que não quero.
- Como assim? Não por quê? E essa encenação toda? Você não quer ganhar sua carteira?
- Não. Na verdade já tenho.
- E por que você esta aqui então?
- Por que sou o novo chefe deste setor. Assumi após denúncias de que o antigo chefe e alguns funcionários estavam recebendo propina. Bem, agora é você pode descer.

Os "bofes" de grávida e seus milagres

- Olha Clau. Seu maldade no coração, mas, você tá meio cheinha na altura da pança hein?!
- Olha aqui sua lambisgóia, você enfia esse “sem maldade no coração” aonde bem entender e fique bem calada. Mocréia faz lipo e se acha no direito de engordar as outras agora é?
- Credo menina! É verdade, você engordou um pouco, oras. O estranho é que é só na barriga. Tá grávida?
- Bata na madeira e dá três pulo! Sai pra lá jacaré, eu me cuido muito nisso. Tá louca?
Lava, passa creme, corta, enxágua, passa tinta e muitas outras coisa no salão de Maria Claudete, jovem cabeleireira que abriu há dois anos seu estabelecimento naquela vila. Clau, como é conhecida pelas amigas que frequentam sua loja de serviços estéticos, ficou encucada. - Mas e agora, vai que é isso mesmo. Minha menstruação já está atrasada e aquele safado do Paulão não tem usado camisinha. Puto pão duro! “Não vou gastar com borracha nenhuma, sei que você não gosta”. Agora vai ter que gastar com a borracha da mamadeira, com o que tem dentro dela e todo o esquema – pensava Clau enquanto atendia as amigas.
- Olha, sem sacanagem agora. Cê acha mesmo?
- Clau, minha amiga, acha que estou de um sete um? É verdade. Sei não. Pra mim você embuchou.
- Deus me livre e guarde. Não estou grávida nem aqui nem na patavina do norte.
Clau não queria admitir. Já tinha acontecido da menstruação atrasar uma ou duas semanas. Além do mais, quando queria ter filho com o Paulão, tentaram, tentaram e nada da criança vir. Não era agora que apareceria algo logo de supetão.
- Ai gente, acho que não estou me sentindo bem. Deve ter sido tua língua de trapo, Madalena.
Antes mesmo que pudesse se sentar, Clau, que estava lavando a cabeça de Madalena vomitou todo o café da manhã no cabelo da cliente. Esta, por sua vez, levantou-se assustada e xingando até a quarta geração de Clau.
- Puta que o pariu Clau duma figa. E agora? Olha o que você fez! Não acredito que tem até feijão no meu cabelo. Que ráios de café da manhã você anda tomando mulher?
- Olha aqui, a culpa é tua, ok? Eu estava muito bem obrigada. Tinha que vir com essa de “tá gordinha na pança” e tudo mais? Que ódio Madalena, tem coisas que não se faz mulher. Vê é coisa sair por aí engravidando as outras?!
- Mas que despautério Clau. Além de lavar meu cabelo com achocolatado vagabundo ainda quer me culpar? Se não sabe encapar um pinto não me venha com essa! Quer saber, nunca mais, nunca mais!
Madalena saiu cheia de raiva e contando o causo à todas as amigas, que ficaram receosas, mas, não deixaram de se embelezar no salão de Clau. Esta, no dia seguinte chamou Paulão na chincha e foram fazer o exame. Batata! Viria, dalí à sete meses, uma menina.
No chá de bebê da cabeleireira, mesmo sem ser convidada, Madalena apareceu.
- Oi Clau.
- Oi. Quem te chamou?
- Ah! As meninas me disseram que era hoje. Vim me desculpar. Fui dura com você, sabe. Me perdoa, vai amiga.
- Olha aqui lambisgóia, claro que te perdoo. Mas, só se você me disse em qual cabeleireira você anda indo, porque seu cabelo está divino menina.
- Então, você não vai acreditar. Ficou assim depois que você vomitou nele. Que diabos de coisa que você comeu naquele dia Clau?
Clau não se lembrava. Também, fazia meses do ocorrido. Tentando rememorar o que havia comido, lembrou-se era do cheiro da dobradinha da dona Antônia, sua vizinha, e logo botou os bofes pra fora. Justo no sapato novo de Madalena.
- Se avexa não. Vai que me faz bem pra pele dos pés? - disfarçou a amiga.

EU IA TE ASSALTAR, MAS ACABEI LAVANDO A LOUÇA


Eram duas da matina quando Arnaldo acordou com um ruído que vinha da cozinha, seguido de um barulho de esfregação. Em um pulo, levantou assustado da cama. Parou na escuridão do quarto e no silêncio da rua para tentar identificar os sons de dentro da casa. “Mas que porra é essa?!”, pensou. Não deveria haver barulho, já que mora sozinho e não tem animal de estimação. Encheu o peito de ar, armou-se com o objeto que estava mais próximo, uma pantufa de solado duro, e abriu a porta do quarto. Saiu repentinamente para o corredor que dava para a cozinha, que estava com a luz ligada. “Putaqueopariufudeu! Estou sendo assaltado”. Branco feito fantasma investiu passos leves em direção à cozinha. Eis que surge uma cabeça de lá.
- Hey! Que cê tá fazendo? Acabei de passar cera aí e você tá manchando tudo com esses pés descalços. Ponha um chinelo. - advertiu um homem de pouco mais de trinta anos, cabelos e barba bem cortados e com um rodo na mão.
Arnaldo automaticamente entrou no quarto, deixou soltou a pantufa no chão e calçou o chinelo que estava ao pé da cama. Repentinamente, como se caísse a ficha, deu as costas ao quarto e rapidamente voltou ao corredor.

  • Péraí seu moço! Que diabos você está fazendo dentro da minha casa, com as luzes ligadas e uma porcaria de rodo na mão?!

  • Oras, não tá vendo? Limpando essa bagunça. Nunca vi homem mais porco na minha vida.

  • Porra, mas que merda é essa! Acordo no meio da noite com um barulho na minha cozinha, venho aqui, tem um caboclo não convidado dentro da minha casa que, ainda por cima, fica me ofendendo? Fala rápido o que você veio fazer aqui ou chamarei a polícia!

  • Seguinte. Sou assaltante e decidi invadir tua casa. Daí, quando entrei, vi que tava virado num pardieiro. Ou seja, vim te assaltar, mas acabei lavando a louça. Depois varri o chão, lavei o banheiro e coisa e tal. Como já tava com a mão na massa, resolvi dar uma geral.
Enquanto o assaltando falava, Arnaldo passou o olho pela casa e reparou que estava tudo em ordem. Janelas limpas, sem teias de aranha no teto, prateleiras sem pó, livros ordenados alfabeticamente, shampoo, condicionador e demais quinquilharias de higiene pessoal separadas e catalogadas em cabelos, dentes e corpo. O caroço da azeitona da pizza comida há três semanas não estava mais no canto da sala, as criaturas grudadas embaixo das cadeiras também. Até o quarto estava ordenado, com direito a lâmpadas sem pó e polidas. E olha que Arnaldo estava dormindo lá.

  • Mas que diabos você fez aqui? Já tentei limpar essa casa e nunca consegui. E olha que uma vez inventei um atestado de quatro dias no serviço só pra tentar arrumar aqui. Nem a dona Lurdes, que consegue deixar uma cela de presídio mais limpa que um centro cirúrgico conseguiu.

  • Bah, que isso! Precisa inflar meu ego não.

  • Hey! Não vá se achando. Pode pegar suas tralhas e saí já daqui. Vou ligar pra polícia. Pensa que esqueci que no fundo você vei me assaltar?

  • Poxa! Você é um puta ingrato mesmo hein! Quer saber, não vou te assaltar. Na verdade não há nada aqui que valha meu esforço. Ligue pra polícia se você quiser, chame os bambeiros, sua mãe. Não estou nem aí. Vou embora e não secarei nem a louça.
Pegou as coisas, subiu na janela, colocou os sapatos, que tinha tirado para não espalhar a terra que tinha trazido de fora, e saiu. Arnaldo ficou estupefato. Não sabia se ligava para alguém, se trancava tudo, se comprava um cachorro ou trancas novas. Apenas voltou ao quarto, deitou, e dormiu.
Semanas depois estava tudo como antes. Um caos. Roupas sujas pela casa, banheiro imundo, louça de quatro dias empilhada na pia. Arnaldo chegou do serviço, olhou para o pardieiro que havia se instalado novamente e suspirou.

  • Poxa. Bem que aquele cara podia aparecer novamente né? Eu até pagaria só pra ele dar uma geral novamente aqui.
Nunca mais apareceu. No fundo, nem era tanto a limpeza que dava saudades em Arnaldo. Mas, sim o bolo de chocolate que o ladrão deixou assado no forno. Igual ao que a mãe de Arnaldo fazia quando ele era criança.

Siga

Que bata o vento forte em seu rosto ardido pelo sol. Que arda os pés e surjam bolhas por causa do tortuoso caminho que traça. No entanto, não desista. Siga até achar que o já deu o que tinha que dar. Não deixe de perceber a paisagem, de conversar e compartilhar sentimentos com aqueles que aparecem, não deixe. Não desista de quem parou, mas, deixe-os em seus caminhos. Lembre-se de quem conheceu, porém, abra espaço e dê atenção para aqueles que está conhecendo, aqueles que são seu caminho agora. A cada tropeço, em cada vez que vier ao chão, levante-se, e novo, siga um novo caminho. Somos a somatória dos que fomos e de quem vivemos, no entanto, não somos eles, somos mais, somos o agora. Façamos, pois, cada um o seu caminho. Oxalá que eles se cruzem novamente.